segunda-feira, 16 de novembro de 2009
TRANSFERÊNCIA
no ar os vestígios
passos pressentidos
a presença imaterial
nas paredes nuas
sombras de quadros
marcas habitadas
janelas abrem-se
inundam os cantos
invadindo de luz
vozes alheias
comentam
opinam
as cores novas
a mobília
posição das coisas
aos poucos
despede o velho
rescende o novo
lembranças esvaídas
histórias de vidas
novos moradores
sinais nos rebocos
nova tinta
apagando marcas...
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
SEXO & BUSCAS
transcende o ato
olfatos e tatos
Seres se buscam
se acariciam
se desejam...
inflexões e posições
são amantes no cio
buscando emoções
anseios e prazeres
unidos, se completam
desnudos de pudores
entregues à faina
de produzirem frenesis
alucinações e deleites
se curtem nos sentidos
da matéria
enlevados na busca
da essência
se entregam e reivindicam
na paz desses momentos
o encontro consigo mesmos
nos braços um do outro...
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
MENTE DOIDIVANAS
inquieta mente
oscila sísmica
entre extremos
fareja poeiras
avista miudezas
silencia e brada
não fora a inconstância
seria previsível, insossa,
nau de porto certo
mas se inquieta
renega vitupera
a acomodação
é dança permanente
rodopia frenética
almeja e não se satisfaz
com o definitivo
certo indiscutível
rosna qual cadela
cansa e revigora
não é natureza morta
mas bússola oscilante
pulsa vívida
contraria etiquetas
em eternas buscas...
domingo, 8 de novembro de 2009
NÁUFRAGOS
náufragos à deriva,
mar chamado vida
bailados insanos
nos reveses das marés
na pródiga mente
criamos sonhos
avistando horizontes
tendo os lemes
por esperanças
desbravadores ensandecidos
de moinhos de ventos
quixotes de lanças empunhadas
viventes de tormentas
crianças inocentes
nascer e morrer dos dias
pacientes de dores, humores,
manhãs dadivosas
tardes melancólicas
noites insípidas
embalagens oníricas
concepções e arquétipos
comportadas amabilidades
danças intermináveis
anseios de alucinados
miragens, utopias,
filosofias e crenças
religiões, fetiches
apetrechos salva vidas
no ir e vir das agonias...
sábado, 7 de novembro de 2009
TRANSE
antes que finalize
em certezas incertas
como manhãs promissoras
que acabam em temporais
como manjar dos deuses
restando em dejetos no vaso
sumindo na latrina
ao som da descarga
urge que se codifique
no alfabeto disponível
este instante fugidio
um lapso no tempo
na rotina sempre igual
parece mágico
sublime
imaterial
etéreo
abstrato
foi pela janela
como pássaro
fugido da gaiola
atropelou-se
ao som do telefone
neste momento
caio em mim
e não mais sei
o que parecia
deixou de ser...
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
A JANELA ABERTA ( CONTO )

(UM DIA INCOMUM NA VIDA DE UM HOMEM COMUM)
O que o afligia era ter deixado aberta a janela do barraco, por mais que a realidade o trouxesse ao momento presente, às angústias reais, o pensamento o levava de volta à preocupação com o esquecimento, na pressa, de ter deixado escancarada a janela...
Deixara ao raiar do dia o vilarejo, suportando a lotação superlotada do coletivo, trazendo amarrotada a carteira de trabalho vazia de registro, pois perdera a original no último tempo ruim que inundara a região e danificara os documentos, apertada no bolsinho da calça de brim índico nada além de moedas, suficientes para ir e vir...
tempos difícies na construção civil, vivendo de pequenos expedientes, levando trocos para casa, dividida com a amásia e a pequena filha. Não se incomodava com o fato de não ter nada para comer naquele dia, não era o único em que padecia os tormentos do compulsório jejum, precisava com urgência de uma vaga, algo certo, dinheiro pouco que fosse mais todo mês, não de bicos e biscates eventuais que traziam inseguranças e fome..
- ô chapa, qual foi a bronca ?
(parecia ouvir ao longe aquela voz estranha, mas era com ele e foi obrigado a voltar a si... )
- curió, panaca, qual a tua bronca ?
- Sei não... (queria urgentemente voltar ao seu mundinho onde a preocupação era a janela que deixara aberta, não que tivesse muita coisa a ser levada, mas, se chovesse, molharia a pouca mobília e a tv pequena comprada a prestações... a companheira saíra com a filha de colo para trabalhar em casa de família, era quarta-feira, ela passava roupas para uma senhora que deixava ela levar o bebê, pelo menos nas quartas elas teriam uma refeição completa...
- se fazendo de bobo, ou tirando uma como a minha pessoa, desgraçado fudido ? ( a voz crescia ameaçadora...)
- não senhor, não sei o que está dizendo...
- quer dizer que está aqui de anjo, caiu do céu ? (gargalhadas compartilhadas pelos outros três na cela fria.)...
( sem saber o que responder, encolheu-se, afinal o que dizer, se, ao certo, nem mesmo ele tinha claro o que acontecera ?)
- Deixa o traste, mano, o bicho tá mijando de medo, um bosta !
- (risos) - Cuzão !!!... ( breve pausa)
( parece que esqueceram de mim, melhor assim, não sei o que falar com esses caras, não costumo conversar com desconhecidos, estou esperando me chamarem, têm que me ouvir, eles vão me soltar, será que choveu e eu deixei aquela janela aberta...)
- toma ! ( um deles estendeu um cigarro) fuma que é bom, relaxa, tu tá tremendo como vara verde, daqui a pouco tem um treco aqui e vai dar trabalho...
- Obrigado, não fumo...
- Não fuma, não bebe, será que mete ? ( gargalhadas)...
( quando será que vão me esquecer ? como demora para me chamarem, vão me ouvir e entenderem que houve um engano, não sou bandido, nunca fui...)
- Vamos te chamar de cuzão senão falar o teu nome, certo ?
- Antonio Francisco da Silva
(gargalhadas) - Tu tá fudido, entrega rápido as coisas, quero ver a língua solta com os meganhas..
- esses cuzões se borram e dão com a língua nos dentes, alcaguetes de merda !(aproximando-se ameaçador) - figurinhas de merda como você não merecem viver, ouviu ? Quem não tem cu que viva na linha, desafios é para caras machos !
- O que tu fêz, cagão ?
- não sei ao certo...
- jura ? Não diga !!!- tá ficando engraçado, ajuda a passar o tempo, e olha que temos todo o tempo do mundo para ouvir a sua versão dos fatos... des-em-bu-cha !!!
- moços, eu juro que não sei !
- será que vai ter que tomar porradas para soltar a merda da língua ?
-... eu estava no ônibus, não tinha o dinheiro todo para a passagem... ( havia perdido uma moeda de R$ 0,25 centavos e não se dera conta; tinha por hábito separar as moedas em dois montes, para ida e a volta, além de deixar para trás um dos montes, perdera uma das moedas. Como estava já distante de sua origem tinha que continuar a viagem) e pedi ao cobrador para passar embaixo da catraca...... ele concordou que eu fizesse isso... mas houve uma confusão, tiros, todos correram de dentro do ônibus e eu fiquei preso na catraca, no chão... ... ouvia gritos dos passageiros e janelas sendo quebradas, todos queriam sair, eu fiquei preso na catraca, não entendi o que estava acontecendo...... depois chegou a polícia, me tiraram de lá, me algemaram, pois haviam atirado no cobrador e no motorista, era um assalto... os dois estavam debruçados, um na direção e o outro sobre a caixa, ambos estavam perdendo sangue......acho que me confundiram com um dos assaltantes e estou aqui...
eles vão ver que houve um engano, sou um trabalhador, desempregado mas trabalhador, entendem ?...preciso voltar para casa antes que chova, a última chuva inundou tudo e perdemos todas as nossas coisas, estamos dormindo no chão...eu deixei a janela aberta...
(silêncio)... cara, tô acreditando na sua narrativa, tu se fudeu de verde e amarelo, os dois, motorista e cobrador abotoaram os paletós, o povo se escafedeu do local, quem vai testemunhar a seu favor ?...pobre é assim, cagado de arara !......
( alheio, como se falasse para si próprio se consolando) alguém que estava lá me viu e sabe que não atirei em ninguém, nem sei como se faz... a janela ficou aberta...
- a casa tá caindo em sua cabeça, curió de merda, e você pensando nesta porra de janela aberta ?!
...se chover inunda, o barranco fica nos fundos e a água desce, por que eu esqueci aquela janela aberta, meu Deus ?...
- caralho, o cara tá pirando ? é o principal suspeito de um latrocínio e ainda se preocupa com um janela que ficou aberta ?
( MUITAS HORA DEPOIS, com o escrivão)
- seus pertences, algumas moedas a identidade e uma carteira profissional em branco como documentos ?
- Sim, senhor...
- trabalha em quê ?
- serviços gerais, na construção civil, ajudante de pedreiro...
- nome da empresa ?
-faz tempo, não lembro não, fui contratado por empreiteira
- nenhum registro ?
- tinha mas a água estragou tudo com a inundação... tirei uma profissional nova....olha, senhor, deixei a janela do meu barraco aberta...
- que é que tem ?
- vai chover e vai inundar de novo e acabar com o pouco que a gente tem, na pressa de sair de madrugada deixei a janela escancarada, a noite foi muito quente, barraco de madeira, deixei a janela aberta para ventilar e esqueci...
- ninguém em casa ?
- só a noitinha, minha companheira e minha flha voltam do trabalho, até lá a janela...-
( mostrando impaciência) - já sei, está aberta !
- sim senhor e pode inundar o barraco...
- o que o senhor acha que eu posso fazer ?
- deixar eu ir até lá fechar a janela e depois eu volto...
- não me venha com essa conversa, por acaso acha que estou brincando em serviço ?
- não senhor, mas se ver meu nome vai ver que não tenho nada com o ocorrido...
- sabe quantos Antonios Franciscos das Silvas, tem no meu fichário, meu caro ?
- não, senhor !
- deixa para lá...
- os meus documentos, os números não são iguais aos outros...
- não quer dizer muito, há muita falsificação, temos que conferir tudo, isso leva tempo.
- será que chove antes ?
- .... ?
- a janela está aberta...
- (exasperado) - por agora é só, você volta depois.
- Quardas !
- que bom, posso ir embora, a janela...
- embora da minha sala e de volta para a cela. Até prova em contrário o senhor é suspeito de ter participado da morte de dois homens, é bom refrescar sua memória e colaborar com a investigação... o senhor foi o único detido em flagrante no local dos homicídios. Está claro que não fêz isso sozinho, é melhor dizer os nomes dos outros e agilizar os trabalhos.
DE VOLTA À CELA...
- olha quem voltou, o paraíba encrencado !
- parece que os "hômis" não acreditaram na sua inocência...
- ( é questão de tempo, verão que não sou culpado, espero que dê tempo de fechar a janela antes da chuva...)
-filhos da puta, vão lhe dar um cansaço, isso se não lhe incriminarem para encerrar o caso...
- me incriminar, como ?! Eu só estava no chão, embaixo da catraca, aquele lascado do cobrador, pobre como eu, escorrendo sangue...
- são escolhas, meu caro. Quis guardar a grana do patrão e levou balas, o outro, o motorista, quis se fazer de herói e hoje são os mais novos moradores do cemitério...
-(benzendo-se) - são pais de famílias... que será delas ?
- (silêncio)...- Prefiro que a minha desista de mim ( preso 1), não quero ver minhas filhas pequenas sendo apalpadas em revistas íntimas e minha companheira descuidada e maltratada para sustentar sozinha a ela e às filhas... não gostaria que se envergonhassem de mim quando souberem, na escola, que o pai é um bandido...Na vida a gente faz escolhas, paga caro por elas, mas são escolhas, ninguém nos induz ao erro, caminhamos por ele. Tinha cansado da vida operária, salário merreca, uniforme, horários, carnês de prestações, vidinha medíocre...Certo dia resolvi que poderia ter sucesso mais fácil e me armei de um revólver e fiz um assalto, não parou ai, me acostumei a tomar do que a ganhar salário. Uma vez as coisas não foram como sempre, houve resistência, era eu ou ele.... depois ficou comum acabar com a vida alheia, esqueci escrúpulos, adotei a marginalidade... até executei por encomenda, ficava com a bronca para mim e silenciava pois recebia para isso...
-( preso 2) - Não aguentava a vida de caixa de supermercado, o dia todo suportando a clientela, consumo de um monte de futilidades, enquanto me sobrava uma cesta básica, muito dinheiro na mão entregando ao superior e eu colecionando moedas para comprar uma camisa nova e o sapato com buraco tapado por dentro por um papelão... dei adeus àquela vida e tomei outros rumos, mais intensos e vibrantes... ninguém fica só nos entretantos, quem sai na chuva acaba se molhando todo... esqueci, ou me esqueceram, irmãos, desgostosos de minha virada, ainda bem que a mãe já é falecida e o meu pai velho demais para ter noção do que está acontecendo comigo...cochilava nos bancos da escola noturna aprendendo como ser alguém na vida, não resisti e descambei de vez. Furtos, assaltos, estelionatos e homicídios...
- porra, paraíba, você tinha que trazer esse papo de família...todos temos e é nossa cruz na consciência... (preso 3)Cedo percebi que o caminho era estreito penoso demais, olhava para os meus familiares, pessoas dignas honradas, envelhecendo dia a dia e vivendo com uns trocados, sonhando acordados, com um futuro incerto... era uma rotina de bater cartão e receber merrecas para mal sobreviver...gostava de uma gata, menina honesta, parecia gostar de mim, planos para se ter um teto e criar nossos filhos, coisa bacana que todos os jovens que amam têm...Acontece que nunca fui muito de estudar, nem terminei o primeiro grau, promoção na empresa nem pensar... ela gostava de estudar e seguiu em frente, foi saindo do meu mundo e vivendo em outro, até me trocar por um futuro mais promissor...Era muita merda junta, cara, muita humilhação para suportar, não pude vê-la com outro, fiz loucuras e acabei com os dois... fugi e continuei na trilha dos desesperados, fugindo de minha vida estreita e me sujeitando a fazer cada vez mais asneiras para sobreviver, até cair de vez...
-comigo foi diferente ( preso 4), meu meio não era pobre, tive possibilidades e estudos, me prostitui por vaidade, dai para o tràfico não foi difícil... garoto bem apanhado, corpo malhado, percebi que era atrativo para mulheres ricas e de posses, adorava o bom viver, a boa comida e o regalo da boa vida, preguiçoso sem ter que saber o que é ganhar o pão de cada dia trabalhando, depois entrei em outro meio, a prostituição masculina, há coroas que pagam em ouro por sua companhia e seu sigilo... passar pó em altas rodas era o de menos, afinal, a alta sociedade adora exibir aos seus convidados a melhor farinha do mercado, toma lá-dá-cá... Para tudo há um tempo, para quem vende o próprio corpo, ele passa mais rápido... não me acostumei com a idéia de ser trocado por rapazes mais jovens e mais viris, em desentendimento com um cliente cativo, o assassinei... aguardo nesta cela a minha sentença...
( O CARCEREIRO BATE NA BARRA DA CELA)
- Antonio Francisco da Silva ?
- Sou eu...
- O delegado quer vê-lo....
- Vá, paraíba, fechar a sua janela, cuidado para não fechar suas portas na vida !!! (disse um deles)
- Até nunca, cabra inocente ! ( falou outro)
- Até !... (sussurrou baixinho)
( COM O DELEGADO)
- Sr. Antonio Francisco da Silva, com a prisão de 2 assassinos e morte de 1 deles, ficou comprovado que não há nada que o comprometa neste caso... O Sr. está livre, pode pegar as suas coisas...
- Sr. delegado, poderia me fazer um empréstimo ?..
.- empréstimo ?-
para completar a condução, faltam R$ 0,25 centavos...
- ( tirando uma moeda) - pode ficar com esta... vá em paz !
- ( se retirando o delegado)... doutor ?
- Mais algum pedido ?
O que o afligia era ter deixado aberta a janela do barraco, por mais que a realidade o trouxesse ao momento presente, às angústias reais, o pensamento o levava de volta à preocupação com o esquecimento, na pressa, de ter deixado escancarada a janela...
Deixara ao raiar do dia o vilarejo, suportando a lotação superlotada do coletivo, trazendo amarrotada a carteira de trabalho vazia de registro, pois perdera a original no último tempo ruim que inundara a região e danificara os documentos, apertada no bolsinho da calça de brim índico nada além de moedas, suficientes para ir e vir...
tempos difícies na construção civil, vivendo de pequenos expedientes, levando trocos para casa, dividida com a amásia e a pequena filha. Não se incomodava com o fato de não ter nada para comer naquele dia, não era o único em que padecia os tormentos do compulsório jejum, precisava com urgência de uma vaga, algo certo, dinheiro pouco que fosse mais todo mês, não de bicos e biscates eventuais que traziam inseguranças e fome..
- ô chapa, qual foi a bronca ?
(parecia ouvir ao longe aquela voz estranha, mas era com ele e foi obrigado a voltar a si... )
- curió, panaca, qual a tua bronca ?
- Sei não... (queria urgentemente voltar ao seu mundinho onde a preocupação era a janela que deixara aberta, não que tivesse muita coisa a ser levada, mas, se chovesse, molharia a pouca mobília e a tv pequena comprada a prestações... a companheira saíra com a filha de colo para trabalhar em casa de família, era quarta-feira, ela passava roupas para uma senhora que deixava ela levar o bebê, pelo menos nas quartas elas teriam uma refeição completa...
- se fazendo de bobo, ou tirando uma como a minha pessoa, desgraçado fudido ? ( a voz crescia ameaçadora...)
- não senhor, não sei o que está dizendo...
- quer dizer que está aqui de anjo, caiu do céu ? (gargalhadas compartilhadas pelos outros três na cela fria.)...
( sem saber o que responder, encolheu-se, afinal o que dizer, se, ao certo, nem mesmo ele tinha claro o que acontecera ?)
- Deixa o traste, mano, o bicho tá mijando de medo, um bosta !
- (risos) - Cuzão !!!... ( breve pausa)
( parece que esqueceram de mim, melhor assim, não sei o que falar com esses caras, não costumo conversar com desconhecidos, estou esperando me chamarem, têm que me ouvir, eles vão me soltar, será que choveu e eu deixei aquela janela aberta...)
- toma ! ( um deles estendeu um cigarro) fuma que é bom, relaxa, tu tá tremendo como vara verde, daqui a pouco tem um treco aqui e vai dar trabalho...
- Obrigado, não fumo...
- Não fuma, não bebe, será que mete ? ( gargalhadas)...
( quando será que vão me esquecer ? como demora para me chamarem, vão me ouvir e entenderem que houve um engano, não sou bandido, nunca fui...)
- Vamos te chamar de cuzão senão falar o teu nome, certo ?
- Antonio Francisco da Silva
(gargalhadas) - Tu tá fudido, entrega rápido as coisas, quero ver a língua solta com os meganhas..
- esses cuzões se borram e dão com a língua nos dentes, alcaguetes de merda !(aproximando-se ameaçador) - figurinhas de merda como você não merecem viver, ouviu ? Quem não tem cu que viva na linha, desafios é para caras machos !
- O que tu fêz, cagão ?
- não sei ao certo...
- jura ? Não diga !!!- tá ficando engraçado, ajuda a passar o tempo, e olha que temos todo o tempo do mundo para ouvir a sua versão dos fatos... des-em-bu-cha !!!
- moços, eu juro que não sei !
- será que vai ter que tomar porradas para soltar a merda da língua ?
-... eu estava no ônibus, não tinha o dinheiro todo para a passagem... ( havia perdido uma moeda de R$ 0,25 centavos e não se dera conta; tinha por hábito separar as moedas em dois montes, para ida e a volta, além de deixar para trás um dos montes, perdera uma das moedas. Como estava já distante de sua origem tinha que continuar a viagem) e pedi ao cobrador para passar embaixo da catraca...... ele concordou que eu fizesse isso... mas houve uma confusão, tiros, todos correram de dentro do ônibus e eu fiquei preso na catraca, no chão... ... ouvia gritos dos passageiros e janelas sendo quebradas, todos queriam sair, eu fiquei preso na catraca, não entendi o que estava acontecendo...... depois chegou a polícia, me tiraram de lá, me algemaram, pois haviam atirado no cobrador e no motorista, era um assalto... os dois estavam debruçados, um na direção e o outro sobre a caixa, ambos estavam perdendo sangue......acho que me confundiram com um dos assaltantes e estou aqui...
eles vão ver que houve um engano, sou um trabalhador, desempregado mas trabalhador, entendem ?...preciso voltar para casa antes que chova, a última chuva inundou tudo e perdemos todas as nossas coisas, estamos dormindo no chão...eu deixei a janela aberta...
(silêncio)... cara, tô acreditando na sua narrativa, tu se fudeu de verde e amarelo, os dois, motorista e cobrador abotoaram os paletós, o povo se escafedeu do local, quem vai testemunhar a seu favor ?...pobre é assim, cagado de arara !......
( alheio, como se falasse para si próprio se consolando) alguém que estava lá me viu e sabe que não atirei em ninguém, nem sei como se faz... a janela ficou aberta...
- a casa tá caindo em sua cabeça, curió de merda, e você pensando nesta porra de janela aberta ?!
...se chover inunda, o barranco fica nos fundos e a água desce, por que eu esqueci aquela janela aberta, meu Deus ?...
- caralho, o cara tá pirando ? é o principal suspeito de um latrocínio e ainda se preocupa com um janela que ficou aberta ?
( MUITAS HORA DEPOIS, com o escrivão)
- seus pertences, algumas moedas a identidade e uma carteira profissional em branco como documentos ?
- Sim, senhor...
- trabalha em quê ?
- serviços gerais, na construção civil, ajudante de pedreiro...
- nome da empresa ?
-faz tempo, não lembro não, fui contratado por empreiteira
- nenhum registro ?
- tinha mas a água estragou tudo com a inundação... tirei uma profissional nova....olha, senhor, deixei a janela do meu barraco aberta...
- que é que tem ?
- vai chover e vai inundar de novo e acabar com o pouco que a gente tem, na pressa de sair de madrugada deixei a janela escancarada, a noite foi muito quente, barraco de madeira, deixei a janela aberta para ventilar e esqueci...
- ninguém em casa ?
- só a noitinha, minha companheira e minha flha voltam do trabalho, até lá a janela...-
( mostrando impaciência) - já sei, está aberta !
- sim senhor e pode inundar o barraco...
- o que o senhor acha que eu posso fazer ?
- deixar eu ir até lá fechar a janela e depois eu volto...
- não me venha com essa conversa, por acaso acha que estou brincando em serviço ?
- não senhor, mas se ver meu nome vai ver que não tenho nada com o ocorrido...
- sabe quantos Antonios Franciscos das Silvas, tem no meu fichário, meu caro ?
- não, senhor !
- deixa para lá...
- os meus documentos, os números não são iguais aos outros...
- não quer dizer muito, há muita falsificação, temos que conferir tudo, isso leva tempo.
- será que chove antes ?
- .... ?
- a janela está aberta...
- (exasperado) - por agora é só, você volta depois.
- Quardas !
- que bom, posso ir embora, a janela...
- embora da minha sala e de volta para a cela. Até prova em contrário o senhor é suspeito de ter participado da morte de dois homens, é bom refrescar sua memória e colaborar com a investigação... o senhor foi o único detido em flagrante no local dos homicídios. Está claro que não fêz isso sozinho, é melhor dizer os nomes dos outros e agilizar os trabalhos.
DE VOLTA À CELA...
- olha quem voltou, o paraíba encrencado !
- parece que os "hômis" não acreditaram na sua inocência...
- ( é questão de tempo, verão que não sou culpado, espero que dê tempo de fechar a janela antes da chuva...)
-filhos da puta, vão lhe dar um cansaço, isso se não lhe incriminarem para encerrar o caso...
- me incriminar, como ?! Eu só estava no chão, embaixo da catraca, aquele lascado do cobrador, pobre como eu, escorrendo sangue...
- são escolhas, meu caro. Quis guardar a grana do patrão e levou balas, o outro, o motorista, quis se fazer de herói e hoje são os mais novos moradores do cemitério...
-(benzendo-se) - são pais de famílias... que será delas ?
- (silêncio)...- Prefiro que a minha desista de mim ( preso 1), não quero ver minhas filhas pequenas sendo apalpadas em revistas íntimas e minha companheira descuidada e maltratada para sustentar sozinha a ela e às filhas... não gostaria que se envergonhassem de mim quando souberem, na escola, que o pai é um bandido...Na vida a gente faz escolhas, paga caro por elas, mas são escolhas, ninguém nos induz ao erro, caminhamos por ele. Tinha cansado da vida operária, salário merreca, uniforme, horários, carnês de prestações, vidinha medíocre...Certo dia resolvi que poderia ter sucesso mais fácil e me armei de um revólver e fiz um assalto, não parou ai, me acostumei a tomar do que a ganhar salário. Uma vez as coisas não foram como sempre, houve resistência, era eu ou ele.... depois ficou comum acabar com a vida alheia, esqueci escrúpulos, adotei a marginalidade... até executei por encomenda, ficava com a bronca para mim e silenciava pois recebia para isso...
-( preso 2) - Não aguentava a vida de caixa de supermercado, o dia todo suportando a clientela, consumo de um monte de futilidades, enquanto me sobrava uma cesta básica, muito dinheiro na mão entregando ao superior e eu colecionando moedas para comprar uma camisa nova e o sapato com buraco tapado por dentro por um papelão... dei adeus àquela vida e tomei outros rumos, mais intensos e vibrantes... ninguém fica só nos entretantos, quem sai na chuva acaba se molhando todo... esqueci, ou me esqueceram, irmãos, desgostosos de minha virada, ainda bem que a mãe já é falecida e o meu pai velho demais para ter noção do que está acontecendo comigo...cochilava nos bancos da escola noturna aprendendo como ser alguém na vida, não resisti e descambei de vez. Furtos, assaltos, estelionatos e homicídios...
- porra, paraíba, você tinha que trazer esse papo de família...todos temos e é nossa cruz na consciência... (preso 3)Cedo percebi que o caminho era estreito penoso demais, olhava para os meus familiares, pessoas dignas honradas, envelhecendo dia a dia e vivendo com uns trocados, sonhando acordados, com um futuro incerto... era uma rotina de bater cartão e receber merrecas para mal sobreviver...gostava de uma gata, menina honesta, parecia gostar de mim, planos para se ter um teto e criar nossos filhos, coisa bacana que todos os jovens que amam têm...Acontece que nunca fui muito de estudar, nem terminei o primeiro grau, promoção na empresa nem pensar... ela gostava de estudar e seguiu em frente, foi saindo do meu mundo e vivendo em outro, até me trocar por um futuro mais promissor...Era muita merda junta, cara, muita humilhação para suportar, não pude vê-la com outro, fiz loucuras e acabei com os dois... fugi e continuei na trilha dos desesperados, fugindo de minha vida estreita e me sujeitando a fazer cada vez mais asneiras para sobreviver, até cair de vez...
-comigo foi diferente ( preso 4), meu meio não era pobre, tive possibilidades e estudos, me prostitui por vaidade, dai para o tràfico não foi difícil... garoto bem apanhado, corpo malhado, percebi que era atrativo para mulheres ricas e de posses, adorava o bom viver, a boa comida e o regalo da boa vida, preguiçoso sem ter que saber o que é ganhar o pão de cada dia trabalhando, depois entrei em outro meio, a prostituição masculina, há coroas que pagam em ouro por sua companhia e seu sigilo... passar pó em altas rodas era o de menos, afinal, a alta sociedade adora exibir aos seus convidados a melhor farinha do mercado, toma lá-dá-cá... Para tudo há um tempo, para quem vende o próprio corpo, ele passa mais rápido... não me acostumei com a idéia de ser trocado por rapazes mais jovens e mais viris, em desentendimento com um cliente cativo, o assassinei... aguardo nesta cela a minha sentença...
( O CARCEREIRO BATE NA BARRA DA CELA)
- Antonio Francisco da Silva ?
- Sou eu...
- O delegado quer vê-lo....
- Vá, paraíba, fechar a sua janela, cuidado para não fechar suas portas na vida !!! (disse um deles)
- Até nunca, cabra inocente ! ( falou outro)
- Até !... (sussurrou baixinho)
( COM O DELEGADO)
- Sr. Antonio Francisco da Silva, com a prisão de 2 assassinos e morte de 1 deles, ficou comprovado que não há nada que o comprometa neste caso... O Sr. está livre, pode pegar as suas coisas...
- Sr. delegado, poderia me fazer um empréstimo ?..
.- empréstimo ?-
para completar a condução, faltam R$ 0,25 centavos...
- ( tirando uma moeda) - pode ficar com esta... vá em paz !
- ( se retirando o delegado)... doutor ?
- Mais algum pedido ?
- Seu troco, doutor, o senhor me deu R$ 0,50 e eu preciso só de R$ 0,25...
( NO BARRACO...)
- Meu Deus, como lhe agradeço por ter dado tempo de chegar antes da chuva e fechar a minha janela....
( na tv de 14 polegadas).... Presos 2 assaltantes e morto um deles que resistiu à prisão pelo assalto ao ônibus da linha ... onde morreram o motorista e o cobrador nesta madrugada ...
CONTO ESCOLHIDO PARA PUBLICAÇÃO NA SELETIVA: 1° ANTOLOGIA DE CONTOS PREMIADOS, EDIÇÃO 2009, EDITORA CÂMARA BRASILEIRA DE JOVENS ESCRITORES -CBJE- SELEÇÃO PARA OBRAS DE AUTORES EM LÍNGUA PORTUGUESA. http://www.camarabrasileira.com/
( NO BARRACO...)
- Meu Deus, como lhe agradeço por ter dado tempo de chegar antes da chuva e fechar a minha janela....
( na tv de 14 polegadas).... Presos 2 assaltantes e morto um deles que resistiu à prisão pelo assalto ao ônibus da linha ... onde morreram o motorista e o cobrador nesta madrugada ...
CONTO ESCOLHIDO PARA PUBLICAÇÃO NA SELETIVA: 1° ANTOLOGIA DE CONTOS PREMIADOS, EDIÇÃO 2009, EDITORA CÂMARA BRASILEIRA DE JOVENS ESCRITORES -CBJE- SELEÇÃO PARA OBRAS DE AUTORES EM LÍNGUA PORTUGUESA. http://www.camarabrasileira.com/
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
OLHOS DA IMAGINAÇÃO
olhos que viajam desatentos
alheios à rotina frugal
bailam irriquietos, despertos,
aspiram carícias pressentidas
nas visões encantadas, não decifradas,
nos matizes invisíveis a olhares severos,
desapercebidos dos assovios dos ventos,
cantos de passarinhos, água rolando da ribanceira,
grilos, cigarras e sapos numa orquestra desigual
olhos que se congelaram ao mental
não distinguem além do perceptível
não viajam por estrelas imaginárias
não vêem o além do visto
crianças sem contos de fadas
medo de assombrações
sem pipas e bolas
nados em rios
percepções condicionadas
cristalizadas no real
circunscritas, encolhidas,
ao mundo restrito, racional...
domingo, 25 de outubro de 2009
CONTRAPONTO
lodaçal em lágrimas
ostracismo solidão
alheio na multidão
as águas amargas
vertidas
não únicas
antes dores
de todos sentidas
se o ego ferido
obnubila as luzes do sentir
não esmaecem manhãs radiosas
cantantes pássaros floridos caminhos
onde tantos amam e sonham
e eu, egoísta, declamo minhas dores
lamentos infrutíferos
inúteis, incapazes
de cessar a marcha
venturosa e guerreira
das lidas nas lições da jornada
escritas com sangue e suor
esperanças aguerridas
por sobre escombros
de mortos e atrocidades
marcha inexorável
evolução altaneira
vencidas batalhas
as certezas da vida ...
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
BAGAGENS
avaliação do que resta
cangalhas, tralhas,
ideologias acumuladas
para nos despirmos
recomeçarmos
marco zero
contagem inicial
urge necessário
priorizarmos
o que fica
do que se deixa
em conceitos e idéias
estigmas lembranças
marcas significados
heranças na alma
histórico apegado
balanço geral
mais que desapego
intrínsecos em nós
indeléveis sinais
característicos
idiossincráticos
personalíssimos
tatuagens impregnadas
registros assinalados no tempo
que não se expurga ou esquece
partes de nosso todo
ilusões e crenças
fetiches e muletas
utopias necessárias...
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
P O D E R
no bojo das certezas
torpezas desenhadas
com que se afiança
de saber definitivo
âncoras em premissas
final ponto do discurso
arcabouço que sustenta
remontando civilizações
acusadores condenatórios
o certo e o errado
sem nuances
de meio termo
verdades escrituradas
marcos alicerçados
no poder inquestionado
dogmas
algemas
escravidão...
MARCO ZERO
das trouxas acumuladas
observações vividas
anotações de memórias
verdades esmaecidas
certezas descartadas
remissões íntimas
ficaram essências
desfolhadas ilusões
folhas em branco
a serem preenchidas
sempre reticências
caminhos a percorrer
nada definitivo
conclusões abertas
sujeitas às reformas
ditadas nos tempos
acrescidas nas vivências
expectativas
chuvas amenas
ou em temporais
armazenadas
nas telas do imaginário
perdulária de divagações
inconclusas em si mesmas
passos e rastros
trilhas
desenganos
volteios no aprendizado
olhos da alma
vendo o não visto
emoções
impressões
sentidos...
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
ENTREVISTA
perdoe-me pelo engano
se te falei de sonhos
floreei jardins
colori cenários
adentrei fantasias
reluzi cantos escuros
perdoe se me apresentei assim
tão utópico, trôpego, inadvertido
talvez não cumpra as exigências
da função pretendida, entendo...
falastes comigo presente
não às minhas digressões
ausentes de sentidos
flanando soltas desvairadas
é que meu íntimo se sobrepõe
ao Ser que se apresenta, sóbrio,
sério, capaz e compenetrado
e o que vês ?...
não queres divagações
estéreis de resultados
à mingua de razões
reduzido em tua presença
amuado, introvertido...
não deixes as janelas assim
abertas ao infinito, lombrigando visões
não esperes de mim redações coerentes
petições convincentes, arrazoados sensatos
sou inábil
trânsfugas
pássaro visionário
das distâncias que me alçam...
por favor, feche as janelas !
se te falei de sonhos
floreei jardins
colori cenários
adentrei fantasias
reluzi cantos escuros
perdoe se me apresentei assim
tão utópico, trôpego, inadvertido
talvez não cumpra as exigências
da função pretendida, entendo...
falastes comigo presente
não às minhas digressões
ausentes de sentidos
flanando soltas desvairadas
é que meu íntimo se sobrepõe
ao Ser que se apresenta, sóbrio,
sério, capaz e compenetrado
e o que vês ?...
não queres divagações
estéreis de resultados
à mingua de razões
reduzido em tua presença
amuado, introvertido...
não deixes as janelas assim
abertas ao infinito, lombrigando visões
não esperes de mim redações coerentes
petições convincentes, arrazoados sensatos
sou inábil
trânsfugas
pássaro visionário
das distâncias que me alçam...
por favor, feche as janelas !
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